segunda-feira, junho 02, 2014

Eu quero protesto na Copa

Volta e meia eu olho algum post do Facebook de algum jornalista abordando a Copa do Mundo. Mais do que nunca, o tema tem trazido posições acaloradas e dicotômicas. Vivemos em tempos de forte polarização.

Pessoalmente, sou contra a Copa no Brasil. Sempre fui, desde a escolha pela FIFA (em 2007?), e minha posição só se reforçou ao longo do tempo. Tenho certeza, também, de que não sou o único. Nunca fui vocal sobre o tema, e nem fui atrás para saber se havia alguma organização para se fazer ouvir. Culpa minha.

Acho interessante os argumentos de alguns repórteres da mídia e pessoas comuns querendo dizer hoje que "agora é tarde demais para reclamar" e que "devemos fazer uma festa bonita e receber bem os convidados". É de uma desonestidade intelectual brutal querer incutir o discurso da culpa sobre quem não era a favor - "deviam ter falado antes".

Em primeiríssimo lugar: diversas fontes mostram o percentual de aprovação da Copa, em 2007 ou 2008, de +-79%. Oras, esquecem de ver o outro lado - 20%, já naquela época, eram contra. Em um evento em que as movimentações financeiras certamente mexeriam com os brios de muitos, só o fato de 1 em 5 não gostar da ideia já deveria anunciar um cuidado do governo de plantão em fazer tudo direito, em tempos adequados, e não a toque de caixa na última hora.

(Eu sei, parece que esqueço que moro no Brasil. Mas, para quem vem dizer isso, pode ir tomar no cu - pago meus impostos, voto, me interesso pelo que acontece, levo a política ao dia-a-dia e faço trabalho voluntário. E você, cara pálida?)

Esquecem também que naquela época, no rufar dos primeiros tambores da Grande Recessão, todos estavam mais que otimistas. Quantas pessoas se diziam a favor da Copa, mas sem pensar nos poréns? Vivíamos forte otimismo, e mesmo depois do início da crise, ainda demorou muito tempo para o Brasil começar a afundar na lama.

De lá para cá, muita coisa mudou. Já comentei isso em outros locais, mas vou deixar registrado aqui. As manifestações do ano passado têm uma causa muito maior do que "serviço público cronicamente deficitário" ou "altos impostos por pouco retorno". Definitivamente, não foram os R$ 0,20. Quero, se me permitem, filosofar um pouco.

Nos últimos 20 anos, a população brasileira se beneficiou do melhor pacote econômico que se pode dar para todos: estabilidade. O plano Real, tão ferozmente combatido pelo petismo, foi um estrondoso sucesso, e trouxe muita, mas muita gente para uma renda melhor. Boa parte dos brasileiros tiveram, pela primeira vez em gerações, chance de fazer algo que antes era permitido apenas aos mais abastados: viajar.

Viajar significa muito mais que umas boas histórias e fotos bonitas: ao visitar países como Inglaterra, França, EUA ou mesmo mais afastados como Japão ou China, a classe média, antes enterrada em solo pátrio, pôde ver em primeira mão o que de fato faz um país civilizado (há quem vá dizer que pode-se discutir essa classificação para China. Eu sei, não é adequada). Transporte público de qualidade, acesso à museus, escolas, saúde e espetáculos artísticos de proporções maiores e mais diversas do que temos aqui. Se conversassem com os locais, perceberiam que o nível de discussão de vários assuntos é outro, mais denso, mais articulado. Mesmo ao se defrontar com a ignorância sobre um assunto, o próprio desenvolvimento cognitivo se manifesta no reconhecimento da própria limitação, algo que o orgulho ignorante do brasileiro não se permitiria (também não vamos exagerar - por vezes a falta de orgulho da "síndrome de vira-latas" é algo tão ruim quanto).

Além disso, o acesso à educação melhorou nesse tempo. O enriquecimento da população e os programas governamentais que incentivam o acesso ao ensino técnico e superior gerou, aos trancos e barrancos, mais pessoas que conseguem ter alguma opinião sobre assuntos mais elevados que "como sobreviver ao mês" e "esticar o orçamento". É possível questionar a qualidade da educação, mas o ambiente universitário, por mais caça-níquel que seja, sempre terá farto espaço para a discussão. Não vamos esquecer também que os "mal-educados" (i.e., que receberam educação de má qualidade), ao saírem da faculdade, se depararam com um mercado mais exigente que seu diploma podia oferecer (um exemplo menor é a taxa de aprovação ridícula nas provas da OAB, mas essa é a ponta do iceberg). Quem é o culpado disso? Quem vai pagar o desperdício de dinheiro e tempo?

Por fim, estamos no 25º aniversário da nossa república atual. O povo está começando a entender como funciona essa coisa de "votar" e, mais importante, "exigir" o cumprimento de promessas. Se compararmos com outros períodos de nosso país, estamos chegando perto do período mais longo de democracia - e é esperada a conscientização da população. Temos de fazer a nossa parte, também, em parar de esperar que "um salvador" ou "instituição salvadora" virá sem problema nenhum corrigir as mazelas de nosso país. É hora de tomar as rédeas nós mesmos, e participar, de uma forma ou de outra, do nosso governo.

Quem advoga pela "volta dos militares" ou qualquer coisa do gênero está querendo dar um tiro no pé - isso é repetir novamente a história, tal como ela se escreveu nos últimos quase 125 anos. Em última análise, é uma solução preguiçosa, porque coloca em outro a tarefa que é nossa, o avanço da nação.