Daqui menos de 2 meses meu filho vai nascer. Entre os vários futuros possíveis, está aquele em que ele fala, em algum momento da infância ou da adolescência, que quer ser médico. "Pai, o que tu achas?"
O que vou dizer à ele?
- Pode ser, filho. Quer saber o que é necessário? Bom, vamos por partes:
1) Estude muito no ensino médio, e planeje ir para uma escola com bons resultados em aprovação de vestibular. Acho que terás que deixar os amigos de onde estuda e ir ao, por exemplo, Colégio Militar em Porto Alegre;
2) No fim do ensino médio, preste o vestibular/ENEM, provas que mudaram tanto nos últimos anos que é impossível saber o que afinal querem. Literatura? Se ler a Turma da Mônica está valendo. Matemática, Física, Química? Será que serão as mesmas? Ninguém fala sobre a reforma do ensino que está sendo discutida, e não ouço opiniões para o lado que deveríamos querer ir, onde estamos, o que está sendo proposto. Redação? O Português culto é avacalhado dia-a-dia, não faz o menor sentido cobrar perfeição na escrita. Me pergunto até o porquê de nos darmos o trabalho de manter o ensino dele nos moldes atuais. Com todas essas incertezas, terás que ser muito diferenciado para passar, já que a competição é grande.
3) Terás várias opções de escolas médicas, mas tens sorte que vou poder ajudar a escolher quais que realmente valem a pena o esforço de passar. Todo mundo diz que quem faz a faculdade é o aluno, mas quando a média qualitativa dos alunos de determinadas instituições é muito baixa, temo que a regressão à média exigirá um esforço muito maior para resistir do que vale a pena - melhor tentar de novo no próximo ano.
4) A faculdade, em todo o seu curso, tem horários insanos, muitas provas e trabalhos, de longe a maior carga horária de todos os cursos superiores. Ao fim de quatro anos (limite onde a maioria dos cursos termina ou se encaminha para terminar), terás então autorização de iniciar o acompanhamento supervisionado de pacientes, o que varia muito conforme a instituição - em algumas, tu serás um boneco de ar balançando os braços do lado do paciente, em outras serás o médico, enfermeiro, técnico de enfermagem e assistente social dele, dependendo da estrutura do lugar onde vais trabalhar. A uniformidade da qualidade e do tipo de ensino entre instituições é um objetivo completamente esquecido dos Ministérios da Saúde e Educação.
5) Formado estás, mas médico não serás! Ainda tens um bom tanto pela frente - esse tanto representado pela residência médica, que pode variar entre 3 a 6 anos, conforme o caminho que tomas. A residência médica é onde podemos refinar o médico e treiná-lo para exercer uma ou mais especialidades. Mesmo para o médico de família, conhecido algumas vezes como “generalista”, a etapa da residência é fundamental para que consiga aprimorar suas técnicas em diagnóstico, decisão terapêutica e seguimento, bem como reconhecer os próprios limites e saber solicitar ajuda sempre que necessário. Hoje, acredito ser impossível fazer boa medicina sem a residência. É uma etapa longa, e pode se tornar ainda mais longa, conforme as discussões do Congresso sobre a formação médica; o plano é aumentar em 1 ano a residência médica, para que a mesma seja feita em emergência ou posto de saúde.
Como se não bastasse isso, conforme a especialidade (p. ex. dermatologia, otorrinolaringologia, radiologia...) será impossível passar na prova sem antes fazer parte de um programa de governo conhecido como Provab - uma espécie de “pós-graduação” em saúde pública, onde a pessoa se dispõe a atender no interior por um período de até 2 anos, com tele-aulas via internet, em troca de um bônus de até 20% na nota da prova da residência - o que significa que, na prática, não existirão pessoas que não tenham feito
6) Depois da primeira residência, é muito comum que o médico passe por uma subespecialização, não raro depois de fazer uma outra prova, essa com um nível mais difícil que as anteriores, com uma competição mais acirrada, ainda que algumas vezes com uma densidade um pouco menor. Isso é válido para a maioria das especialidades clínicas (cardiologia, pneumologia, endocrinologia, reumatologia, nefrologia, medicina intensiva, oncologia, gastroenterologia) e cirúrgicas (urologia, proctologia, cirurgia plástica, cirurgia oncológica, cirurgia digestiva, cirurgia torácica). Outras residências muitas vezes envolvem uma ênfase - isso ocorre, por exemplo, na traumatologia/ortopedia (pé, mão, joelho, ombro, quadril, coluna), na ginecologia (oncogenital, mama, fertilidade, entre outros), entre outros exemplos. Assim, não raramente aqui estamos com mais 2-3 anos de dedicação, conforme a especialidade.
7) E com tudo isso, ao final ainda tens… Uma prova de especialista. Esqueça todo o resto em termos de dificuldade. Aqui, é melhor fazer outro vestibular, que certamente é mais fácil. O nível de exigência é muito alto, e as sociedades assim o fazem para, primeiro, garantir um “selo de qualidade” que identifica que o profissional sabe bem todos os assuntos que fazem parte do âmbito da especialidade e, segundo, para impedir que picaretas que praticam de forma irregular tratamentos e procedimentos de especialistas estejam associados aos profissionais que estudam de forma séria os mesmos - em especial na hora que acontece um problema.
Vamos fazer uma soma simples do tempo que passou em todos esses passos:
Faculdade de Medicina (6 anos) + “Segundo Ciclo” (2 anos) + Residência Médica em área básica (2 anos) + Especialização (2 anos) = 12 anos.
Isso é um mínimo, porque ainda podemos ter outro tipo de cálculo:
Faculdade de Medicina (6 anos) + “Segundo Ciclo” (2 anos) + Provab (2 anos) + Residência Médica (2-3 anos) + Especialização (2-3 anos) = 16 anos, conforme a escolha feita.
Nesses anos todos, você só ganhou, no máximo, o dinheiro que conseguiu em alguma bolsa de estudos ou monitoria. Imagine que, durante esse tempo, se você entrar na faculdade com 17 ou 18 anos (um ás do vestibular!), terminará a sua formação com 30 a 34 anos (de novo, um ás, se não teve nenhum contratempo). Normalmente nesse período as pessoas namoram, casam e até mesmo começam famílias. A não ser que goste de ser sustentado pelos pais, o jovem candidato a médico hoje é obrigado a renunciar a sua vida pessoal, emocional, em prol de uma carreira que, apesar de muitos quererem, não é sacerdócio.
Médicas são quase obrigadas a ter filhos muito tarde, carregando, além da ansiedade própria da maternidade, o carga extra de culpa e medo por conta de possíveis problemas genéticos, que ocorrem muito mais freqüentemente em gestações em idade avançada.
Existem diversos problemas na formação médica brasileira, mas este, o fator tempo, é o mais ignorado. Ninguém lembra que antes de ser médico, a pessoa também deseja ter uma vida que vai além do trabalho. Não é à toa que vejo muitos colegas abandonarem a medicina depois de alguns anos, e ouço vários outros dizerem que planejam abandonar relativamente cedo a carreira. Os novos bons médicos que estão se formando em instituições de ponta estão recebendo, cada vez mais, fortes estímulos para exercer a profissão fora do país. Quem sobrará aos brasileiros?